Mu-ná, Ru-rá e Ulsa

No início dos tempos, quando as estrelas ainda eram jovens, o Sol e a Terra eram um só e viviam juntos no céu. Mu-ná era a terra, a grande mãe, a que guardava tudo o que iria nascer. Ru-rá, o sol, morava dentro dela e Mu-ná ardia com tanto calor que as rochas eram líquidas e tudo era um movimento constante. Assim foi durante muito tempo. Um dia, porém, Mu-ná disse ao sol:

– Preciso descansar Ru-rá, pois sem quietude nada daquilo que trago comigo poderá vir a ser. Teu calor é forte demais e por demais agitada é tua força. No entanto se partires como poderei gerar aquilo que deve nascer?

E Ru-rá com bondade infinita respondeu:

– Está certo que eu parta pois as eras futuras devem chegar. Mas não preciso ir para tão longe que não possa esquentar-te. Caminharei até a distância certa no céu e de lá estarei sempre te olhando e velando para que sejas sempre aquecida, tu e todos os filhos que nascerão de ti. Só deves te lembrar de dançar, de rodar sempre e sempre no céu, para que eu possa ver-te por inteiro e nunca esquecer de nenhum recanto teu. Além disso deixarei um pedaço meu no teu centro para que nunca te esqueças de que já fomos um.

E assim Ru-rá, o sol, cumpriu sua promessa à mãe terra e até hoje vela pelos filhos dela. Tão pouco Mu-ná deixou de dançar para o sol e com ela dançam todos os seus filhos.

Quando Ru-Rá deixou a Terra e ela esfriou um pouco, Mu-Ná viu que dentro dela havia um lugar mais frio do que todos os outros, era lá que vivia Ulsa. Era uma região mais escura do que todas as outras e onde havia um halo prateado por cima de tudo. Este halo Ulsa mesmo tecia dos seus próprios cabelos e envolvia com eles todos os seres que a rodeavam. Era o lugar mais silencioso e por ele Ulsa caminhava ereta e delgada, com seus pés mal tocando o solo. Os bichos e plantas que gostavam da escuridão suave de Ulsa viviam perto dela e lhe eram  fiéis. A pele de Ulsa era muito branca e as flores que nasciam para ela eram brancas assim e Ulsa soprava para dentro delas o seu hálito e um perfume estonteante percorria a noite.

Ulsa era a senhora da escuridão e das águas, foi ela que ensinou as águas a cantarem: o murmúrio suave dos riachos, o ronco mais forte dos rios caudalosos, as cantigas alegres das cachoeiras e cascatas, o estrondo das cataratas, o tilintar da chuva na terra macia, e deu aos lagos da Terra o grande presente do silêncio, onde as águas descansam, olham e escutam.

No entanto, sem Ru-Rá, o frio de Ulsa começou a se espalhar por Mu-Ná e a mãe Terra não conseguia mais gerar os seus filhos. Mu-Ná então se dirigiu a Ulsa e pediu-lhe que se afastasse para que aqueles que deviam nascer, amadurecessem em seu ventre. Ulsa abaixou a cabeça e chorou pois sabia que se fosse para o céu seria destruída pela força e calor de Ru-Rá. Mu-Ná lhe propôs então que ocupassem lugares opostos no céu, quando Ru-Rá partisse  ao entardecer, ela nasceria e de longe Ru-rá a iluminaria e a faria bela para as criaturas da escuridão. Ela seria a Lua, o sol da noite. Ulsa, no entanto, explicou a Mu-Ná que não poderia correr tão rápido como o sol, que tinha pés de fogo. A cada dia ela se atrasaria mais, até que chegaria o dia em que ela e Ru-Rá nasceriam juntos e ela seria devorada por ele. Mu-Ná então prometeu a Ulsa que após cada morte ela nasceria de novo e teria novas forças para se afastar de Ru-Rá para que ele a iluminasse por inteiro de novo. E foi assim que Ulsa foi para o céu e morre a cada ciclo e renasce a cada ciclo, e tudo aquilo que deve morrer e renascer recebe as bênçãos de Ulsa.

Das criaturas de Ulsa que ficaram na Terra, dizem que os lobos, cães e chacais foram os que mais sentiram sua falta, pois Ulsa dormia junto deles, e eles a chamam quando ela está iluminada no céu. Um chamado que Ulsa não pode atender. Quanto às águas, todas elas choraram pois Ulsa não podia mais cantar com elas. Mas o grande lago chamado mar, enfureceu-se e lançou suas águas para cima  tentando trazer Ulsa de volta. Criou grandes ondas e jurou que nunca pararia de se mover enquanto Ulsa estivesse longe. No entanto, os pequenos lagos da Terra, que descansam, escutam e olham, permaneceram quietos e silenciosos e por isso nas noites em que Ulsa está cheia no céu, ela pode se espelhar e nascer dentro deles e por meio deles Ulsa visita a Terra e as criaturas que ama. Mu-Ná viu tudo isso e aceitou pois assim deveria ser.